Instituto Malleus Dei

Sobre

Há um nome que carregamos como quem carrega uma pergunta, e talvez por isso ele nunca nos tenha deixado dormir tranquilos: Malleus Dei, o martelo de Deus, e, no mesmo instante em que a boca o pronuncia, o martelo que faz tombar os deuses. Não sentimos nisso contradição alguma, apenas o crepúsculo, aquela hora que os antigos do extremo Norte, na sua imaginação vasta e um pouco terrível, chamaram de Götterdämmerung: o entardecer em que os deuses se recolhem, cansados de serem adorados, perturbados pelo barulho do coletivo humano, para que reste somente a Fonte silenciosa de onde todos eles, e nós com eles, um dia se desprenderam. Golpeamos as sombras e reflexos, e as golpeamos sem ódio, como quem golpeia o ar buscando fôlego, porque aprendemos com uma lentidão de séculos que nenhum sonho suporta para sempre o peso do fato, ante o qual o devaneio é tão menos que memória.

Somos um instituto, e no entanto a palavra parece pequena demais para o que aqui se reúne. Estudamos o modo antigo, anterior às fronteiras que os homens ergueram entre as suas fés, pelo qual aquilo que se dispersou lentamente retorna e, ao retornar, se reconhece. Tudo que foi perdido sempre encontra uma forma de retornar ao seu lugar de amor. Deram-lhe muitos nomes, e é possível que seja por isso que nenhum baste: os gregos sussurraram hénosis e theosis, a subida em que o humano deixa de ser estilhaço; nos vales onde corre o Ganges falaram de moksha, e do ātman que nunca esteve de fato apartado de Brahman; os que se debruçavam sobre o Sefer Yetzirah contavam trinta e duas vias e uma devekut da qual não se volta; e havia, muito antes de tudo isso, no limo quente entre os dois rios, os que guardavam os me, os decretos mudos com que o mundo inteiro foi, certa vez, pronunciado.

Não separamos o espírito da matéria, e não o fazemos por uma razão simples: nunca, em lugar nenhum, os vimos separados. A terra é viva sob os pés de quem caminha; o seu fogo interior, as suas veias de água e de metal, pertencem ao mesmíssimo texto que os astros vão escrevendo lá em cima, e quem se educa a ler uma dessas faces descobre, com um assombro que não passa, que estava o tempo todo lendo a outra, e que em nossas veias humanas o que corre é também água, fogo, combustível e metal. O mundo é a primeira e a mais idosa das revelações, e não pede intérprete que se coloque de pé entre ele e você. Foi assim que o Mundus Subterraneus imaginou a terra a respirar por bocas de fogo, e assim que a Teoria Humoral leu no corpo os quatro fluidos que também movem as estações, porque não há dentro nem fora, há apenas correspondência, o eco de uma coisa em todas as outras.

Do lugar em que hoje escolhemos nos colocar, dir-nos-iam trans-humanistas e pós-humanistas, e aceitaríamos os nomes com um sorriso, contanto que se entenda que o nosso sonho é reencantar o corpo, e nunca abandoná-lo. Um humanismo que caminha com a técnica sem se ajoelhar diante dela, e uma ética que se sustenta sem precisar pendurar-se de céu nenhum. O governo que imaginamos se reparte por muitas mãos, em vez de se juntar numa só. O Divino que procuramos não é macho nem fêmea, não se herda por linhagem nem se impõe por autoridade, e é justamente por isso que o velho senhor do homem que reina sozinho sobre a casa nos parece, ao fim, apenas mais um deus à espera do martelo.

Este lugar é, então, menos uma escola do que uma travessia. Reunimos o Trivium e o Quadrivium, os Theosophemata dos que vieram muito antes de nós, o pouco de sabedoria que sobrou nos livros que quase ninguém tem coragem de abrir, e oferecemos, a quem quiser, um caminho de volta. Porque a apoteose, ao contrário do que ensinaram os que precisavam de servos, está aberta a todos: é a lembrança, ao mesmo tempo lenta e vertiginosa, daquilo que sempre fomos, muito antes de termos aprendido a nos esquecer.

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